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Como trabalhar o processo de alfabetização com alunos autistas?

Como trabalhar o processo de alfabetização com alunos autistas

 

Para pessoas típicas ou atípicas, ler e escrever são habilidades muito importantes para a vida em sociedade. Elas facilitam a comunicação, socialização, promovem independência, autoestima, compreensão do mundo ao redor, desenvolvimento acadêmico, profissional e muito mais.

Em resumo, a alfabetização facilita o processo de inclusão na sociedade.

Dia 8 de setembro é o Dia Mundial da Alfabetização e, como existem muitas dúvidas sobre o processo de alfabetização de alunos no espectro, preparamos este conteúdo.

 

O que é alfabetização?

 

Basicamente, alfabetização é um processo de aprendizagem visando ensinar uma pessoa a ler, escrever e interpretar a partir da compreensão do sistema alfabético.

A alfabetização parte de um processo cognitivo, onde há habilidades que precisam ser desenvolvidas em todas as pessoas, independente de idade ou da condição (típica ou atípica), precedem a leitura e escrita.

Primeiro a criança aprende a ler e, só depois, a escrever. Uma leitura fluente resulta em uma boa escrita. Isso acontece, pois, enquanto a leitura é a decodificação do alfabeto (compreensão da relação das letras com o som), a escrita é a codificação desse mesmo conjunto, que compreende um processo cognitivo muito mais difícil.

Mas quando se trata de alunos no espectro, será que a forma de ensinar difere de crianças típicas? A resposta é sim! Entenda sobre as diferenças no próximo tópico.

 

Qual a diferença de alfabetização de uma criança autista e típica?

 

A alfabetização de uma criança com TEA e típica se difere em relação às metodologias utilizadas, o tempo que esse processo irá levar e a compreensão das suas características específicas.

Em muitos casos, as metodologias utilizadas nas escolas não consideram as particularidades de uma criança no espectro e o período maior que ela pode precisar para desenvolver determinadas habilidades, causando bastante frustração.

Assim como uma pessoa típica, cada criança com autismo funciona de uma forma e percebe o mundo de maneira diferente: algumas são mais visuais, outras se interessam mais por sons ou atividades manuais. Com isso, o interessante é que os professores e pais façam testes, investiguem as principais dificuldades da criança, experimentem formas de apresentar um conteúdo e invistam no que houver maior adesão.

A alfabetização tem que ocorrer de forma personalizada!

 

Processo estruturado de alfabetização de crianças com TEA

 

Confira os 5 itens que compõem um processo estruturado de alfabetização para alunos com autismo:

 

Consciência fonológica

A consciência fonológica é a capacidade de associar as letras aos seus sons.

A dificuldade de organização e compreensão da linguagem são sintomas comuns em pessoas com TEA. Por isso, quando o aluno é estimulado a parar e pensar que cada letra tem uma sonoridade própria, aquela informação começa a ficar mais organizada e o código alfabético começa a fazer mais sentido. Com isso, a habilidade de percepção e manipulação do som vai aumentando.

 

Princípio alfabético

Esse princípio foca na percepção de que cada letra tem um símbolo e um som específico. “O princípio alfabético envolve o reconhecer as letras do alfabeto, realizar a correspondência grafema-fonema, além de conhecer e produzir o som correspondente a um código gráfico (grafema/letra), tendo relação direta com a decodificação.” (Puranik, Lonigan, & Kim, 2011)

 

Se o aluno com autismo na escola ou seu filho com TEA ainda não conseguiu ser alfabetizado, seja ele criança, adolescente ou adulto, volte para os fundamentos e trabalhe principalmente essas duas habilidades precursoras: consciência fonológica e o princípio alfabético. Apenas com essa base bem estabelecida será possível avançar na leitura e escrita.

Confira as outras habilidades fundamentais para a alfabetização:

 

Instrução fônica

A instrução fônica consiste no ensino de grafemas, relacionando os sons das palavras faladas com a ortografia. Isso auxilia ainda mais no desenvolvimento da consciência fonológica e facilita a aprendizagem leitura

 

Instrução explícita

Forma direta e estruturada de ensinar, dividindo a aula em etapas e tornando o processo mais claro. O objetivo da instrução explícita é dividir o processo de aprendizado em algumas fases:

  • Objetivo da aula: explicar para os alunos o que será ensinado naquela aula e por que aquilo é importante
  • Instrução: o professor mostra para a turma o passo a passo de como realizar determinada tarefa
  • Prática: sob supervisão do professor, os alunos trabalham em conjunto para colocar o que aprenderam em prática e, depois, realizam a mesma tarefa individualmente
  • Correção: o professor corrige as atividades, dá feedbacks para os alunos e, quando necessário, instrui o aluno a refazer a atividade
  • Avaliação: antes de iniciar um novo conceito, o professor deve avaliar se os alunos conseguiram aprender o que foi ensinado

 

Abordagem multissensorial

A abordagem multissensorial consiste em utilizar os sentidos para facilitar o processo de aprendizagem.

As pessoas têm estilos de aprendizagem distintos. Enquanto alguns são mais visuais e precisam desenhar ou escrever para aprender, outros aprendem melhor por meio dos sons, necessitando apenas da explicação falada pelo professor, por exemplo.

No processo de alfabetização, ao utilizar os sentidos, diferentes áreas do nosso cérebro serão acionadas. Isso trabalha as diferentes formas de aprender e ajuda a solidificar aquela nova informação.

Lembre-se: se a criança tem interesses restritos por algum tema, utilize no processo de alfabetização atividades adaptadas para alunos com autismo com base em seu interesse. Se o interesse dela é por astronomia, por exemplo, prepare as aulas, imagens e atividades com o tema de planetas, estrelas e galáxias.

 

Métodos que dão suporte ao processo de alfabetização e letramento de alunos autistas

 

  • Método PECS: O Sistema de Comunicação por Troca de Figuras incentiva a criança a se comunicar por meio da utilização de figuras ou para ampliar seu repertório de palavras. Leia mais sobre o PECS.
  • Método TEACCH: tem o objetivo de promover o aprendizado a partir da valorização das capacidades cognitivas de cada pessoa. Além disso, o método se baseia na adaptação e organização dos ambientes para facilitar a compreensão do que é esperado em cada um deles, fomentando novos aprendizados em casa, na escola, no trabalho ou em outros ambientes. Leia mais sobre o TEACCH.
  • Método ABA: tem o objetivo de ampliar o repertório comportamental da criança. Com isso, espera-se que ela melhore a interação com outras pessoas e tenha menos dificuldades na comunicação social. O conjunto de técnicas visa, também, a diminuição de comportamentos disruptivos. Leia mais sobre a ABA.

 

Ferramentas que auxiliam as escolas e as famílias no processo de ensino

 

Material com atividades de alfabetização para crianças autistas com base na ciência ABA (Applied Behavior Analysis), desenvolvido por Juliana Moura, especialista em Autismo e ABA, e pela psicopedagoga Maria Helena Campos

Para famílias, recomendamos o Jade Autism: um aplicativo para tablet, smartphone ou computador, desenvolvido para estimular funções cognitivas de crianças com TEA. Por meio de jogos de associação ou da memória, o Jade aprimora a cognição brincando

Para escolas, recomendamos o Jade EDU: o software educacional auxilia as escolas na inclusão escolar de alunos com autismo, através de atividades que estimulam o raciocínio lógico, a memória e outras habilidades que as crianças devem desenvolver durante a vida escolar. A plataforma oferece anamnese pedagógica, relatório de desempenho dos alunos, cursos e treinamentos visando aumentar o conhecimento dos professores sobre autismo. Para mais informações sobre o Jade Edu, entre em contato pelo email contato@jadeautism.com

 

Como a alfabetização é trabalhada no Jade Autism e no Jade Edu

 

Dentro das plataformas são trabalhadas áreas de conhecimento em diferentes componentes curriculares:

Aplicativo para alfabetização de crianças autistas - Jade Autism

 

A alfabetização acontece principalmente na categoria “letras”, onde é desenvolvida a compreensão do sistema alfabético, da ortografia, das diversas grafias, da acentuação e da morfologia das palavras.

As habilidades aprendidas são:

 

Grafar palavras utilizando regras de correspondência, fonema-grafema regulares, contextuais, morfológicas e palavras de uso frequente com correspondências irregulares

Acentuar corretamente palavras oxítonas, paroxítonas e proparoxítonas

Diferenciar palavras primitivas, derivadas e compostas

Diferenciar palavras derivadas por adição de prefixo e de sufixo

 

Aplicativo para ensino de crianças autistas - Jade Autism

 

Além do processo de alfabetização, esta categoria trabalha a estimulação cognitiva com a técnica de associação de pares. Nela é estimulada a atenção e, enquanto processo cognitivo, envolve mecanismos responsáveis pela seleção, inibição, alternância e sustentação de estímulos.

 

FAQ

 

O que fazer quando a criança não aprende a escrever?

Mesmo com todo o processo estruturado, se a criança aprender a ler, mas não aprender a escrever, faça adaptações. Há outras formas de comunicação além da escrita, como o Sistema de Comunicação por Troca de Figuras (método PECS). Mesmo sem saber escrever, o importante é que ela consiga se expressar.

 

E no caso de autistas não verbais?

Autistas não verbais também devem ser alfabetizados. Afinal, eles precisam se comunicar, mas a fala não é necessariamente um pré-requisito para isso.

Nesses casos, o processo estruturado de alfabetização também pode ser utilizado em conjunto com o método PECS. A avaliação do aprendizado da leitura em um autista não verbal pode ser feita com o apoio de imagens e figuras, onde a criança lê algum texto e depois aponta para a figura que melhor representa o que foi lido.

 

Esperamos que este conteúdo tenha sido útil para você. Em caso de dúvidas, utilize os comentários para deixar sua pergunta.

 

5 comentários

    • Olá, Claudia.
      Tudo bem?
      Sim, uma criança autista pode sim aprender a ler. Como destacamos na matéria, existem casos que esse será um processo mais longo e outros mais rápidos. Mas o processo de alfabetização envolve um desenvolvimento cognitivo, da fala e de comunicação, em que todos precisam ser trabalhados. Por isso, é muito importante um acompanhamento por uma equipe multidisciplinar para que esse processo seja efetivo.

  • Qual melhor caminho no processo de alfabetização para uma criança de 5 anos que já se alfabetizou sozinha ? Por onde começar para que a mesma não perca o interesse na escola?

    • Olá, Paloma.
      Existem casos que devido ao hiperfoco e interesse do autista, essa pessoa tenha um desenvolvimento muito rápido em certas habilidades. Em uma situação como essa, seria interessante fazer avaliação educacional para analisar o nível de conhecimento desse aluno e verificar se existe a possibilidade/capacidade dele “pular de série”.

  • Bom dia!
    Minha filha Laura tem 10 anos é autista grau leve se comunica bem, conhece letras números e corres mas ela fala que não quer escrever e ler.
    Gostei da matéria e gostaria de receber mais informações
    Obrigado

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