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Células-tronco e Autismo: inovação do futuro ou risco do presente?

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O diálogo em torno do autismo – principalmente em relação a crianças que estão no espectro do TEA –  está bastante pautado em como tornar tratamentos e terapias mais inovadoras e mais acessíveis para essas crianças e suas famílias. Isso significa também que há bastante pesquisa em como a ciência pode contribuir com métodos eficazes de ajudar esses pacientes.

Por conta disso, há muito debate em relação ao uso das células-tronco. “As células-tronco são células que possuem várias características úteis que sugerem um potencial promissor de aplicação terapêutica para o tratamento de várias doenças” explica Leticia Braga, PhD e CEO da OncoTag.

É importante frisar, no entanto, que nem tudo pode ser resumido em curas e métodos inovadores. Por exemplo, o autismo é uma neurodivergência, não uma doença e, portanto, a busca por uma suposta cura milagrosa pode ser prejudicial. Claro, há potencial para inovação científica e tratamentos que podem ajudar as pessoas –  principalmente as crianças –  a terem mais acesso a métodos terapêuticos para desenvolverem suas habilidades de forma que respeite as suas especificidades sem prejuízo à educação e ao bem-estar da criança. Mas isso não significa que qualquer método seja seguro e funcione.

Justamente por ser uma inovação científica que pode e já é utilizada em diversos tratamentos devemos pesquisar mais a fundo sobre o que ela significa e quais são suas aplicações para entender se é viável e possível que ela tenha alguma contribuição positiva para comunidade no espectro. Se os benefícios são superiores aos riscos ou se os riscos ainda são muito grandes e, mesmo que inovação possa vir a existir, no momento ainda não é viável.

 

O que são células-tronco?

As células-tronco são células que têm “a capacidade de (1) auto-renovação: as células-tronco são capazes de gerar novas células-tronco idênticas a célula-mãe; (2) diferenciação: por meio deste processo, as células darão origem a células mais diferenciadas, ou seja, podem formar células novas; (3) exercer funções regulatórias parácrinas: as células-tronco sintetizam e liberam proteínas (substâncias) capazes de regular a diferenciação celular, reparo de tecidos e órgãos e ações antiinflamatórias”, explica Leticia.

Elas surgem  no desenvolvimento embrionário humano e ainda são encontradas em alguns orgãos humanos após o nascimento, sendo utilizadas para renovação de tecidos, como por exemplo na medula óssea.

De acordo com a especialista, “elas têm grande potencial de recompor tecidos danificados, e assim auxiliar no tratamento de doenças como câncer, doenças coronarianas, parkinson e Alzheimer.” Mas a aplicação não é tão simples: “ainda é restrita, devido obviamente aos aspectos relacionados à segurança dos protocolos em desenvolvimento. Ainda estamos pesquisando…. Existem poucas terapias celulares aprovadas, a maioria ainda não é licenciada, ainda passam por testes clínicos nas agências regulatórias.”

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Existe aplicabilidade comprovada no TEA?

Dr. Marcelo Masruha, neurologista infantil, explica que o problema da relação entre regenerar células e tecidos se torna uma questão maior se há tentativa de aplicá-la ao TEA: “há diferentes tipos de neurônios e células da glia que podem ser gerados pelas células-tronco. Qual tipo gerar? Em qual quantidade? Essas células devem ser “colocadas” em qual posição no cérebro? Como deverão estabelecer as conexões entre elas? Nenhuma dessas perguntas tem uma boa resposta.”

“Até o momento,” continua ele, “todos os experimentos que utilizaram células-tronco para o tratamento do autismo falharam em demonstrar alguma resposta positiva. Isso porque não há, nem mesmo, um alvo cerebral específico definido para o tratamento.”

Ele alerta para a ética médica em relação à suposta cura do autismo: “Ciência é assim mesmo: um campo para o debate de diferentes opiniões. Vejo problema quando profissionais cobram para realizar esse tipo de tratamento, sem que haja nenhum tipo de comprovação de eficácia. Aliás, se o paciente for se submeter ao tratamento, os pais precisam ser avisados dos potenciais riscos e o tratamento não pode ser cobrado. É assim que se conduz um ensaio clínico.”

Inclusive, o potencial de riscos não deve ser minimizado em situações experimentais, explica ele: “há um alto potencial, pelo menos em teoria, para reparar tecidos danificados. Ocorre que, da mesma maneira, há um potencial elevado para, a partir de um descontrole do processo de diferenciação celular, a geração de tumores. Dessa forma, o grande problema com esse tipo de terapia é conduzir a diferenciação celular, a partir de uma célula-tronco, até que ela dê origem aos tipos celulares específicos pretendidos, sem que com isso haja a formação de células anormais.”

 

A questão da cura

Outra questão comumente esquecida, principalmente em relação à familiares e professores e outras pessoas envolvidas na vida da criança com autismo, é que não há uma cura. Parte da motivação em torno dessas supostas curas para o transtorno é facilitar a assimilação das crianças à sociedade da forma como ela é. 

Porém apesar da importância de incluir essas crianças em atividades escolares e sociais, é preciso ter cautela. A busca por uma cura é o que pode levar as pessoas a buscarem tratamentos supostamente inovadores, em estágio de pesquisa clínica ou até baseados em pseudociência que trazem malefícios.

Em parte os riscos são em relação à saúde das próprias crianças. Isso é, o uso indiscriminado de remédios ou de outros agentes terapêuticos pode desencadear efeitos colaterais tanto no momento quanto prejuízo mais tarde na vida.

É importante pensar também no impacto da busca de uma cura milagrosa para o autismo e seu papel na estigmatização de pessoas no espectro autista. É claro, é interessante encontrar formas de auxiliar as crianças a desenvolverem suas habilidades, mas não em detrimento de suas limitações e peculiaridades. 

Em relação à pesquisa das células-tronco, é importante lembrar que ela ainda está sendo primariamente estudada. Enquanto isso, há outros tratamentos já consolidados que são utilizados para fins terapêuticos, ou seja, melhorar a qualidade de vida e facilitar a comunicação, educação e inclusão das crianças.

Utilizar métodos terapêuticos já consolidados, como por exemplo a ABA, equipes multidisciplinares que cuidam da fonoaudiologia, motricidade e nutrição da criança, jogos, tecnologia, terapias, estímulos adequados são uma forma muito mais saudável e eficaz de lidar com os potenciais problemas de comportamento ou comunicação que a criança com autismo pode apresentar. Educadores que trabalham com a individualidade das crianças com TEA, rotinas estabelecidas, apoio familiar e inclusão social também são pontos relevantes.

Por isso, é importante que a comunidade médica, comunidade educacional e os familiares dessas crianças encarem essas pesquisas como um ponto de partida para buscar novas inovações científicas e não como uma cura milagrosa de algo que não precisa ser curado.

Uma equipe multidisciplinar adequada que acompanha o desenvolvimento da criança, uma família preparada para mudanças na rotina e uma equipe didática focada nos estímulos adequados e adaptações necessárias para crianças no espectro. O desenvolvimento vai acontecer de uma forma que seja menos estressante e menos prejudicial para essa criança. Ela vai encontrar seu espaço tanto dentro e fora da família dentro e fora da escola sem prejudicar sua saúde física ou mental.

 

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